A trajetória eleitoral segue seu curso
17 de julho de 2026

imagem: Mihai Cauli
texto: Adhemar S. Mineiro
Enquanto a trajetória eleitoral segue seu curso, em 2026, poucos se dão conta de que o processo eleitoral brasileiro desse ano poderá ser lembrado, mais à frente na história, não apenas pela escolha do presidente, governadores e deputados para os próximos quatro anos, e dos senadores para os próximos oito anos, mas também por se marcar como um momento de transição de lideranças e gerações na política nacional.
Pela primeira vez desde a redemocratização, na segunda metade dos anos 1980 do século passado, o país se aproxima de um cenário em que as duas principais lideranças que estruturaram a acirrada polarização política da última década — Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro — caminham para deixar de ocupar o centro da disputa presidencial. Ainda que ambos permaneçam como os protagonistas em 2026, a eleição projeta uma discussão indubitável: quem conduzirá os campos da esquerda e da direita na década de 2030, a se manter a polarização estruturada desde meados da década passada?
No caso da centro-esquerda, a questão sucessória é particularmente relevante. Lula chega à disputa de 2026 com oito décadas de vida e, independentemente do resultado eleitoral, não poderá ser candidato em 2030 em razão do limite constitucional de dois mandatos consecutivos. Mesmo que alguns possam pretender que seja de novo candidato em 2034, terá idade bastante avançada, tornando improvável sua participação em uma nova campanha presidencial. Isso significa que a construção de uma nova liderança nacional deixa de ser uma discussão abstrata e passa a ser uma necessidade concreta do campo progressista.
A direita enfrenta um desafio similar, embora por razões diferentes. Jair Bolsonaro permanece como principal referência política de seu campo, mas continua inelegível até 2030 por decisão da Justiça Eleitoral, além de conviver com problemas recorrentes de saúde, enquanto sua idade também avança, e em 2034 também estará bem próximo dos 80 anos. Esse contexto acelerou a disputa pela sucessão dentro do próprio bolsonarismo. A família Bolsonaro busca preservar seu capital político, enquanto outros governadores e lideranças conservadoras procuram ampliar espaço e construir identidade própria. Entretanto, mesmo no interior da família, afloram tensões fortes, cada vez mais abertas, entre os irmãos e a esposa de Bolsonaro, na disputa pelo espólio. A tensão entre continuidade do legado bolsonarista e renovação da direita também tende a marcar os próximos anos.
As pesquisas eleitorais divulgadas até o momento refletem a continuidade de um cenário de polarização. Os levantamentos continuam indicando uma disputa dura, com Lula liderando a maior parte dos cenários de primeiro turno e mantendo vantagem estreita em simulações de segundo turno, dentro desse ambiente eleitoral bastante polarizado. Ao mesmo tempo, candidatos identificados com a direita permanecem competitivos, especialmente no segundo turno (mostrando a força do antagonismo a Lula), e demonstram capacidade de mobilizar parcela expressiva do eleitorado. A tendência predominante nas pesquisas parece ser a de manutenção da polarização, e no âmbito da direita, onde há disputa por protagonismo, o quadro reestrutura, com qualquer candidato à direita, a disputa polarizada no segundo turno, mesmo com outros candidatos.
Assim, uma eventual renovação de nomes não significa, necessariamente, o fim da polarização. Ao contrário, tudo indica que ela deverá continuar organizada em torno de projetos distintos de país, ainda que possamos ter novos líderes. O eleitor brasileiro parece cada vez menos vinculado a esta polarização que o conecta a lideranças capazes de sintetizar visões de mundo, valores culturais e propostas econômicas bem distintas. Nesse contexto, e se não houver alteração substancial, o desafio das forças políticas estruturadas de um lado e de outro será construir lideranças que herdem boa parte do capital eleitoral acumulado por Lula e Bolsonaro, independentemente das figuras pessoais de ambos.
A sucessão também evidencia uma transformação importante da política brasileira. Se durante boa parte das últimas duas décadas as campanhas foram marcadamente personalizadas, a partir da próxima década a disputa poderá voltar a enfatizar programas de governo e coalizões políticas mais amplas, pois a construção de lideranças claras provavelmente ainda não estará dada.
Chama a atenção por isso, nas eleições de 2026, uma disputa não muito clara, mas que ultrapassa em muito a escolha apenas dos próximos governantes. O eleitorado será chamado a decidir entre diferentes estratégias de inserção internacional do Brasil. De um lado, encontram-se propostas que enfatizam uma política externa mais autônoma, baseada no fortalecimento dos BRICS, da integração sul-americana e da diversificação das relações econômicas internacionais, de um reconhecimento do novo papel da China na disputa pela hegemonia internacional. De outro, aparecem correntes que defendem maior aproximação com economias desenvolvidas, ampliação dos acordos de livre comércio e redução do protagonismo diplomático brasileiro em fóruns multilaterais, alinhamento quase que automático aos interesses dos EUA. Embora existam nuances dentro de cada campo político, essas diferenças deverão permanecer presentes no debate público.
O mesmo ocorre na economia. As alternativas colocadas diante do eleitorado envolvem diferentes estratégias de desenvolvimento. Um conjunto de propostas privilegia políticas industriais, investimentos públicos, fortalecimento dos bancos de desenvolvimento, ampliação das políticas sociais e redução das desigualdades. Outro enfatiza reformas pró-mercado, maior participação do setor privado, contenção do gasto público e ampliação da abertura econômica. Na prática, qualquer próximo governo dificilmente implementará um modelo estrito de um lado ou de outro, mas a direção predominante das políticas públicas dependerá do resultado das urnas. Além disso, o crescimento das relações econômicas da China com o Brasil implica que um governo que queira se alinhar inteiramente aos interesses econômicos dos EUA terá graves problemas com os setores primário-exportadores brasileiros (agronegócio, mineração e petróleo), pois a China hoje é o principal comprador desses setores, e qualquer discussão mais dura com a China, que envolva retaliações, pode ser mortal para alguns desses setores no Brasil.
Também estará em jogo a relação entre Executivo, Parlamento e Judiciário. Os acontecimentos dos últimos anos colocaram o fortalecimento das instituições democráticas no centro do debate nacional. Independentemente das preferências ideológicas, temas como estabilidade institucional, respeito às regras eleitorais, funcionamento dos Poderes e qualidade da democracia deverão permanecer como componentes centrais da disputa política, e tentativas de modificações profundas nessas áreas podem fazer o país transitar para um ambiente de uma crise de graves proporções.
Outra dimensão fundamental diz respeito às desigualdades sociais. O Brasil conseguiu reduzir significativamente o desemprego e ampliar a renda média nos últimos anos, mas continua convivendo com elevada informalidade, profundas diferenças regionais e baixa produtividade. O desafio dos próximos governos progressistas será transformar crescimento econômico em desenvolvimento sustentável, conciliando aumento da competitividade com inclusão social, melhoria da educação, inovação tecnológica, industrialização e transição energética. No caso da direita, o ataque aos programas sociais pode tornar ainda mais difícil a relação com a democracia, uma vez que as maiorias sociais que são atendidas ou apoiam os programas sociais se voltarão contra o governo, em caso de se tentar alterações profundas nessas políticas – enquanto, por outro lado, não mexer muito nestes programas, tentando evitar a impopularidade, pode enfraquecer o apoio de uma direita mais ideológica a um governo conservador.
As eleições de 2026, portanto, parecem representar muito mais que do que uma disputa por cargos. Elas podem inaugurar um processo de reorganização das forças políticas brasileiras que se estenderá por toda a próxima década. Independentemente dos vencedores, essa disputa estará definindo quem terá a capacidade para liderar a esquerda e também a direita, em um cenário em que os atuais nomes que expressam a polarização, Lula e Bolsonaro, estarão saindo de cena, ou pelo menos do protagonismo na cena.
É justamente essa característica que marca o caráter histórico do processo atual. O voto deste ano deverá definir não apenas o governo dos próximos quatro anos. Ele poderá estabelecer quais lideranças, quais agendas e quais projetos nacionais terão condições de disputar a hegemonia política do Brasil na década seguinte. Mais do que escolher os ocupantes dos principais cargos, os brasileiros estarão decidindo quais caminhos poderão seguir em temas chaves. O resultado das eleições poderá ter a capacidade de produzir efeitos que ultrapassam esse calendário eleitoral do ano em curso, e poderá influenciar a trajetória política e econômica do país pelas décadas futuras.
publicação original:
https://terapiapolitica.com.br/a-trajetoria-eleitoral-segue-seu-curso/
Este texto exprime a visão do(a) autor(a) e não representa a opinião da Abed
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