Não é o trabalhador, é o capital!
5 de junho de 2026

imagem: Diego Rivera
texto: Luis Nassif
O professor José Pastore é um especialista em trabalho com um preconceito invencível contra trabalhador. Lembro-me da abertura da economia, nos anos 90. Pastore alertando para a baixa produtividade do trabalhador brasileiro, fruto da baixa escolaridade.
Na época, eu conversava com executivos de empresas francesas, suiças, coreanas, e todos eles enalteciam a criatividade do trabalhador brasileiro. De Carlos Salles, CEO da Xerox do Brasil, ouvi maravilhas. Durante dois anos seguidos, a Xerox do Brasil venceu nas 5 categorias de eficiência da Xerox mundial. Graças à versatilidade do trabalhador brasileiro, me dizia Salles. Conferi com o diretor de Recursos Humanos da Mercedes. Um departamento de mecânico foi digitalizado. Em um mês, os metalúrgicos que tornaram-se trabalhadores digitais conseguiram uma produtividade superior à dos colegas alemães, mesmo grande parte deles não tendo sequer o ginásio.
Dia desses, Pastore comparou funcionários brasileiros de bar com americanos, para reforçar seu preconceito contra o trabalhador brasileiro. Como nunca colocou os pés em uma empresa, não sabe o óbvio: maior ou menor produtividade depende fundamentalmente do modelo de gestão. Hoje em dia, a maior parte de bares e restaurantes de São Paulo possuem funcionários colhendo pedidos e fazendo cobranças em celulares programados. Se isso não for aumento de produtividade, o que seria?
Com pesquisas por IA, vamos aos estudos acadêmicos sérios sobre a questão.
A força de trabalho brasileira foi a parte da equação que mais avançou nas últimas duas décadas. O que estagnou foi tudo o que está ao redor dela: máquina, tecnologia, estrutura produtiva e instituições.
Painel analítico · séries FGV-IBRE / Observatório da Produtividade Regis Bonelli, IBGE/PNAD Contínua, The Conference Board e AEB.

O paradoxo: a qualificação subiu, a produtividade não acompanhou
Se o gargalo fosse a “qualidade do trabalhador”, escolaridade crescente deveria puxar a produtividade. Ela cresceu — e a produtividade ficou praticamente parada. O capital humano foi o componente que mais avançou desde 1995; sem ele, o resultado agregado teria sido pior.

A oferta de mão de obra fez a sua parte. A demanda — empregos qualitativamente melhores — não apareceu na mesma proporção, gerando até sobrequalificação.
Fontes: escolaridade e ensino superior — IBGE/PNAD Contínua. Produtividade do trabalho — FGV-IBRE (crescimento de ~0,3% a.a. entre 2010–2023). Índice de produtividade estilizado para refletir a quase estagnação documentada; pontos de escolaridade são valores observados.
A mesma força de trabalho, três resultados opostos
O argumento mais limpo contra a tese da culpa individual: em 2025, é o mesmo trabalhador brasileiro em todos os setores. A produtividade disparou no agro e recuou na indústria e nos serviços — que respondem por mais de 90% das horas trabalhadas. O que difere não é a mão de obra: é o capital, a tecnologia e a inserção de cada setor.

Um problema de “qualidade do trabalhador” não consegue render num setor e desabar em dois outros que empregam a mesma população.
Fonte: FGV-IBRE / Observatório da Produtividade Regis Bonelli (variação da produtividade do trabalho, 2025).
Decomposição: onde o motor falha
A produtividade do trabalho resulta de três fatores. A direção de cada um localiza o problema longe de quem trabalha.
LEITURA QUALITATIVA — DIREÇÕES SEGUNDO FGV-IBRE, SEM MAGNITUDES OFICIAIS

Fonte: FGV-IBRE / Observatório da Produtividade Regis Bonelli (decomposição da produtividade do trabalho). Representação direcional: as setas indicam o sentido documentado de cada componente, não percentuais de contribuição.
Regressão relativa: o fosso com os EUA voltou ao nível dos anos 1950
Não é estagnação — é recuo. No período em que o trabalhador mais se qualificou, a produtividade brasileira caiu pela metade em relação à norte-americana, voltando ao patamar de sete décadas atrás.

Hoje o trabalhador brasileiro leva uma hora para produzir o que um americano faz em 15 minutos.
Fonte: The Conference Board, via AEB. Pontos documentados: anos 1980 (≈46%) e 2024 (25,6%). A trajetória entre eles é estilizada para representar a tendência de queda, não dados anuais.
O Brasil ficou para trás de quase todos
Crescimento acumulado da produção por trabalhador em cerca de duas décadas. O Brasil só superou a média da América Latina e do Caribe.

Países emergentes multiplicaram a produtividade por mais de duas vezes; o Brasil mal saiu do lugar.
Fonte: compilação a partir de dados de produção por trabalhador (≈ últimas duas décadas até o fim dos anos 2010). Valores ilustram a ordem de grandeza do descolamento; metodologias diferem entre blocos.
A economia política da culpa
A expressão “qualidade do trabalhador” opera como deslocamento de responsabilidade: transfere para o indivíduo — e, no limite, para a folha salarial — um déficit que é de investimento, política industrial e instituições. É funcional. Justifica compressão salarial e flexibilização, ao mesmo tempo em que dispensa o capital de explicar por que a participação do país no comércio mundial é a mesma da década de 1980. Ressalva honesta: há um problema real de qualidade do ensino — anos de escola não equivalem a aprendizado efetivo. Mas isso é responsabilidade do sistema, não “qualidade do trabalhador” — e, ainda assim, secundário diante de um capital físico travado e de uma PTF em queda.
Séries e indicadores: FGV-IBRE / Observatório da Produtividade Regis Bonelli; IBGE / PNAD Contínua (escolaridade, ensino superior, informalidade, variação setorial); The Conference Board e Associação de Comércio Exterior do Brasil (comparação Brasil × EUA). Pontos marcados como “estilizados” ou “ilustrativos” representam tendências documentadas, não dados anuais oficiais — sinalização adotada para preservar a separação entre fato medido e leitura analítica.
publicação original:
https://jornalggn.com.br/economia/jose-pastore-nao-e-o-trabalhador-e-o-capital/
Este texto exprime a visão do(a) autor(a) e não representa a opinião da Abed
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