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Vão conseguir quebrar a China?

24 de março de 2025

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imagem: Mihai Cauli

texto:  Marcos de Queiroz Grillo

 

O rápido avanço tecnológico da China é resultado de um plano de longo prazo. Em 2015, o governo chinês lançou o projeto “Made in China 2025” cujo objetivo era deixar de ser um país fabricante de produtos baratos, passando a ofertar aqueles de alta tecnologia e assim, diminuindo sua dependência na importação de suprimentos tecnológicos. Para tanto, foram escolhidas dez áreas prioritárias e estabelecidos 250 objetivos.

Segundo Lindsay Gorman, do Centro de Estudos German Marshall Fund, o sucesso do plano decorreu de políticas de Estado lançando mão de empresas capitalistas no desenvolvimento de uma agenda de pesquisa e de financiamento, contando com pesquisadores estrangeiros e criando joint ventures entre empresas chinesas e estrangeiras.

Segundo o jornal South China Morning Post, 86% dessas metas foram alcançadas. Alguns exemplos de sucesso são os carros elétricos, a produção de baterias, os painéis solares, os drones, a computação quântica, as energias renováveis, a tecnologia 5G, a inteligência artificial, as plataformas de internet, dentre tantas outras.

A publicação IN FOCUS, de 12/12/24, do Serviço de Pesquisa do Congresso dos EUA (Congressional Research Service) aponta que o plano chinês prevê recursos da ordem de US$ 1,5 trilhão em pesquisa, desenvolvimento de produtos e aquisição de empresas estrangeiras. Até 2020, segundo a fonte, já teriam sido investidos US$ 627 bilhões.

A guerra comercial dos EUA com a China foi incrementada no primeiro mandato de Trump e continuada por Biden. Tudo indica que continuará sendo prioridade no governo Trump 2.0, justificada por razões de segurança nacional dos EUA. Ela é fruto de conflituosa paranoia compartilhada tanto pelos Republicanos como pelos Democratas. A sociedade norte-americana vive um negacionismo em relação ao fato de já ter sido alcançada pela China nas mais diversas áreas: militar, tecnológica, diplomática e econômica. EUA e países aliados acusaram os chineses de terem utilizado hackers para roubar propriedade intelectual tecnológica. Um exemplo seria tecnologia de empresas aéreas americanas, o que sempre foi negado pela China.

Segundo o Professor Peng Zhou, da Cardiff University Business School, ao longo de diversos anos os países ocidentais impuseram restrições e sanções à China no tocante a tecnologias sensíveis, o que levou os chineses a buscarem autossuficiência nessas áreas.

A Huawei é um exemplo marcante dessa façanha pois, já em 2019, liderava o mercado global em equipamentos 5G e fabricava volume importante de celulares. Levou um duro golpe dos EUA que alegaram espionagem industrial e riscos à segurança nacional. Perdeu a prerrogativa de importar microchips do exterior e, assim, foi forçada a voltar-se para a fabricação própria de tais insumos, logrando lançar, em 2023, celulares com tecnologia avançada. O próprio Brasil sofreu muita pressão dos EUA para descartar os equipamentos da Huawei, dominantes na nossa rede nacional de 5G.

A Tik Tok vive litígio nos EUA e foi forçada a vender seu controle acionário. A DeepSeek também perdeu a possibilidade de adquirir chips para o desenvolvimento de seus modelos de IA e decidiu desenvolver seus próprios produtos, que são mais baratos e mais eficientes que os ocidentais, tendo surpreendido o mundo e causado oscilações nas bolsas de valores. Para contrabalançar tais revezes, em janeiro de 2025, os EUA e suas gigantes tecnológicas anunciaram o compromisso de investimentos de US$ 500 bilhões em infraestrutura de inteligência artificial.

Existe uma verdadeira fobia contra a China, totalmente irracional, que considera tudo que venha de lá como uma ameaça aos EUA. A guerra comercial está na pauta do dia a dia com a imposição pelos EUA de tarifas nas importações, inclusive dos aliados mais próximos que são o Canadá e o México. Aplica-se, também, sobre os produtos da China e de outros países com grande peso relativo na pauta de importações dos EUA.

É importante lembrar que no seu primeiro mandato, Trump já havia imposto uma tarifa nas importações da ordem de 10%. Agora, agregando mais 20%, elevou para 30% a taxação sobre tudo que é importado da China. Isso, com certeza, é um pesado fardo nas exportações da China para os EUA. Os importadores americanos pagarão mais caro até para os produtos de valor inferior a US$ 800 importados de tradings chinesas.

Nos EUA também imperam fake News. Circulam nas redes inverdades sobre os efeitos dos impostos de importação. Dizem alguns que as tarifas não causam inflação, que elas reduzem os preços dos produtos para os americanos, que criam empregos e que reduzem o imposto de renda para os americanos.  Evidentemente, essas são afirmações falsas ou meias-verdades.

O povo norte-americano pode até compreender que o aumento dos impostos de importações para produtos chineses é justificável pois as autoridades americanas e parte de seu povo consideram, equivocadamente, a China como uma ameaça aos EUA. Mas, penalizar o Canadá e o México, parceiros incondicionais do Acordo USMCA, de 2020, soa como traição. Essas cadeias produtivas sempre foram consideradas eficientes, modernas, complementares, enfim, uma integração com uma cadeia tripartite de elevada sofisticação, no state of art.

A taxação sobre os produtos do Canadá e do México, aliados dos EUA, representa um retrocesso em acordo comercial bem sucedido, fruto de investimentos produtivos na linha de integração e interdependência na cadeia produtiva dos três países. Definitivamente, essa não pode ser considerada uma estratégia de ganha-ganha.

Trump está cercado de gente belicista e linha dura em relação à China (Peter Navarro, Kyle Bass, Marco Rubio, Waltz, Elon Musk, Steve Bannon, dentre outros) e tudo leva a crer que haverá um acirramento dos conflitos comerciais e tecnológicos entre os dois países. O establishment norte-americano não se conforma com a perda de hegemonia que está enfrentando em relação à China.

A razão de impor tarifas sobre as importações americanas não é, como falaciosamente aventado, uma punição a certos países pela não contenção da imigração ou por força do tráfico de entorpecentes. Isso é falso. De fato, a razão é impor pela força um fluxo de desinvestimentos no exterior e o retorno de tais capitais para os EUA – “America First”. Isso, caso concretizado, implicaria uma profunda reorganização das cadeias de suprimento hoje presentes e funcionando no mundo, após anos de globalização. Não é uma tarefa fácil e muito menos realizável no curto prazo. Os investimentos têm sua análise de risco e tempos próprios, além de prazos longos de maturação. Isso certamente desagradará os empresários americanos.

É uma asneira ignorar a interdependência existente na cadeia de suprimentos vigente no mundo. Decisões empresariais de investimentos foram tomadas ao longo de muitos anos visando baratear custos, otimizar cadeias de suprimento e fortalecer processos industriais. Um bom exemplo é o aço que os EUA importam do Brasil, que serve de insumo para as siderúrgicas norte-americanas. Taxar o aço importado do Brasil é uma sandice a menos que se encontre de imediato um novo fornecedor confiável que ofereça preços mais competitivos para os industriais americanos. Fazê-los verticalizar a produção, fabricando o que importam, demora e, certamente, custará mais caro. Resultado: aumento desnecessário de custos para os EUA e mais inflação.

Outro aspecto que deve ser levado em conta são as cadeias de suprimento. Os painéis solares que os EUA importam da Índia provêm da China. São relações comerciais existentes que teriam de ser desmontadas, não necessariamente para o bem do empresariado norte-americano.

Como mostra o recente artigo do New York Times intitulado “Breaking Up With China is Hard To Do”, publicado em 30/09/2024, a eficiência e competitividade dos produtos chineses saltam aos olhos. Jim Farley, CEO da Ford, após visita à China, constatou a superioridade da indústria chinesa de carros elétricos em comparação aos demais produtores do ocidente. A produção de carros elétricos de maior qualidade e de menor preço é um fato.  A Ford, segundo Farley, não tem condições mínimas de competir com os chineses, tendo incorrido em prejuízos da ordem de US$ 5 bilhões, em 2024, na sua produção própria de carros elétricos. Daí a decisão de Farley de formar uma joint venture com os chineses, o que foi uma solução comercial e tecnológica para a Ford.

O mesmo conceito está presente nos planos da Apple, que tomou a decisão de aumentar a produção nas suas subsidiárias chinesas em 2025. Segundo Jeff Fieldhack, diretor de Pesquisa da Counterpoint Research, a Apple dobrou sua produção na China. Levaria uma década para sair de lá e estabelecer-se em outras paragens. Trata-se de um enorme ecossistema de componentes que são predominantemente fornecidos pela China, em detrimento de fornecedores de Taiwan, EUA, Japão e Coreia do Sul. Isso para não falar da expansão de seu centro de pesquisas em Shangai e de um novo laboratório em Shenzhen.

São milhares de empresas norte-americanas que construíram suas cadeias de suprimento industrial na China. Trata-se de parcerias que já duram 50 anos. Isso evidencia o fracasso potencial da política de isolamento da China, propugnado pelo Deep State norte-americano, o que será um grande tiro no pé da economia dos EUA. A justificativa norte-americana é tornar a China mais democrática, liberal e alinhada com a política externa dos EUA. Segundo tais ideólogos, aceitar o “America First” seria a melhor saída para todos os países. Esse é um conceito irrealista e arrogante. Fere a inteligência e a soberania dos países, o que começa a ser rejeitado pela União Europeia, até então, totalmente submissa aos EUA.

Há exemplos de fortes pressões sobre empresas europeias, proibidas pelos EUA de venderem seus produtos para a China. É o caso da ASML, da Holanda, que produz microchips avançados e está proibida de exportá-los para a China, com perdas de bilhões de dólares de vendas potenciais para o mercado chinês.

As pressões dos EUA são respaldadas pela espada de Dâmocles das sanções e das políticas de desestabilização de governos o que, também, certamente, acontecerá com os países do BRICS, caso não continuem se submetendo à hegemonia do dólar. A China, prudentemente, manteve distância de tais ingerências, preservando a ferro e fogo sua autonomia, soberania e planejamento estratégico.

Agora, após anos de globalização e de abandono de suas indústrias nacionais, os EUA resolveram copiar o modelo chinês e atrair investimentos para sua reindustrialização. Porém, não dispõem de mão de obra barata, nem tampouco de competitividade. Acontece que por conta de um eficiente processo de planejamento estratégico, investimentos em indústrias de alto valor, domínio de setores-chaves como tecnologia verde e de ponta, após décadas de trabalho árduo, a China destronou a hegemonia dos EUA.

O gráfico a seguir mostra as estimativas do FMI para o PIB – Paridade Poder de Compra, para as maiores economias do mundo. Diferente do PIB nominal, o PIB (PPC) leva em conta o custo de vida e a inflação de cada país, utilizando o índice “dólar internacional” e não a conversão direta dos produtos dos países pelas taxas de câmbio internacionais.

 

A opção dos EUA de combatê-la e de boicotá-la não será nada fácil, além de muito perigosa e pouco realista. A atual interdependência entre os países está muito enraizada.

Segundo o economista Stephen Roach, da Universidade de Yale, a continuação, por Trump, da estratégia xenofóbica antichinesa apregoada por Biden, é inteiramente contraproducente. A Huawei, duramente boicotada, ressurgiu das cinzas e continua muito competitiva. A Deep Seek apresenta produtos mais baratos e tão ou mais eficientes que seus competidores norte-americanos. Segundo ele, a estratégia dos EUA de contenção tecnológica só faz com que os chineses fiquem mais eficazes e competitivos.

Além disso, não é nada inteligente que os EUA e a China acirrem suas divergências com base em decisões reativas e emocionais de seus líderes. Ele e muitos outros pensadores, cuja escolha é o bem-estar e a paz, pensam ser indispensável que essas duas importantes nações constituam uma Secretaria Bilateral Multidisciplinar, com especialistas de renome, localizada em território neutro, para discutir de forma organizada, planejada e com visão diplomática de futuro, os temas prioritários que criam rivalidade e tensionam a agenda geopolítica. O objetivo seria a construção de propostas para soluções de conflitos potenciais ou já existentes nas áreas de comércio, tecnologia, políticas industriais, subsídios, câmbio, saúde, mudanças climáticas, segurança cibernética, direitos humanos e geopolítica (incluindo a questão de Taiwan). Situações inusitadas como balões e drones espiões, acidentes navais no Mar da China, dentre outras, seriam objeto de análise e propostas de acordos para solução pacífica de conflitos, subsidiando decisões racionais e voltadas para a preservação do planeta.

É indispensável que se restabeleça a confiança mútua entre China e EUA, o que está parecendo cada dia mais difícil, por questões hegemônicas. A cooperação entre os dois países não é uma questão de escolha, mas sim de imperiosa necessidade. Colaboração e não confrontação. Essa é a única saída viável para os dois países, a menos que se prefira o advento de uma terceira guerra mundial.

 

publicação original:

https://terapiapolitica.com.br/vao-conseguir-quebrar-a-china/

 

 

 

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