O Crescimento da Economia Brasileira e a '' nova '' lamentavel elevação da taxa selic
31 de outubro de 2024
imagem: ABED
No segundo trimestre de 2024 o Produto Interno Bruto – PIB brasileiro cresceu de forma expressiva superando as expectativas de um mercado menos realista e “pessimista”. Sistematicamente, parcela de economistas, especialmente aquela vinculada ao sistema financeiro, no início de cada ano, projeta o crescimento do PIB brasileiro em reduzidos patamares e, em sentido inverso, a inflação em taxas elevadas. O motivo desta previsão, que vai se alterando ao longo do ano e se aproximando da realidade na medida em que o calendário oficial avança, que normalmente é aceita pelo Comite de Política Monetária – COPOM do Banco Central, é defender os interesses particulares do sistema financeiro procurando manter as taxas de juros de mercado em patamares elevados. Ao longo do ano vão atualizando as suas projeções com base na realidade vivenciada, que se diferencia de suas previsões iniciais. A atual prática deste grupo de economistas atrelado aos interesses do mundo financeiro rentista não é diferente e continua equivocada.
No segundo trimestre de 2024, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE através do estudo Contas Nacionais Trimestrais, o PIB brasileiro apresentou um crescimento de 1,4% se comparado ao trimestre anterior e de 3,3% em relação ao mesmo trimestre de 2023, superando consideravelmente as expectativas anunciadas por esse pessoal. A previsão de crescimento do PIB para 2024 divulgada pelo Boletim Focus do BACEN, era de 2,68% para o ano de 2024.
Pela ótica da oferta/produção, no segundo trimestre de 2024 em comparação ao mesmo período de 2023, o PIB dos Serviços cresceu 3,5% (com aumento em todos os subsetores) e o da Indústria avançou 3,9% (com destaque para os segmentos de eletricidade e gás, água, esgoto, atividades de gestão de resíduos). Em sentido contrário, o PIB das atividades Agropecuárias recuou 2,9% no período, desempenho esperado em função da sazonalidade das suas atividades.
Pela ótica das despesas/consumo, no mesmo período, o PIB cresceu em todos os seus segmentos, sendo de 4,9% o do Consumo das Famílias, de 3,1% o do Consumo do Governo, de 5,7% o da Formação Bruta de Capital Fixo (investimentos), de 4,5% o das Exportações de Bens e Serviços e de 14,8% o das Importações de Bens e Serviços.
Tais indicadores, tanto da ótica da oferta quanto da demanda, especialmente o de aumento do Consumo das Famílias, deixa o grupo de economistas financistas entusiasmados uma vez que argumentam que tal fato irá aumentar a inflação, e, portanto, justificaria um aumento da Taxa SELIC para conter este inevitável processo, segundo eles. Mas a realidade não é bem essa.
Efetivamente, o aumento do consumo pode pressionar a elevação dos preços dos produtos, mas desde que não haja oferta suficiente para atender a demanda. Ao que parece isso não está ocorrendo no mercado e nem há perspectivas de acontecer nos curto e médio prazos. Sem que os investimentos cresçam muito, entretanto, e em vários setores, parte desse crescimento e potencial de crescimento estarão sendo transferidos a outros países, como mostra o expressivo crescimento das importações.
O Consumo das Famílias apresenta um período de treze trimestres de crescimento consecutivos, na comparação com um ano antes, sem ter causado impactos expressivos no aumento da inflação. Indicador neste sentido são os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo - IPCA que, em agosto de 2024 reduziu -0,02% e a inflação acumulada em doze meses cedeu para 4,24%. Essa foi a primeira deflação do IPCA no ano e a menor variação para o mês de agosto desde 2022. Outro fato concreto é que entre julho e agosto de 2024 houve queda dos preços da Cesta Básica calculada pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (DIESSE) nas dezessete capitais brasileiras pesquisadas.
Ressalte-se que também observou-se um considerável aumento do PIB relativo na Formação Bruta de Capital Fixo, que, se por lado, provavelmente parte é reflexo do processo de recuperação da economia do Rio Grande do Sul em decorrência dos efeitos da catástrofe ambiental ocorrida no Estado, por outro, pode estar sinalizando uma perspectiva de aumento da produção e produtividade, principalmente do segmento industrial brasileiro, o qual tem sido estimulado por políticas do governo federal vinculadas as atividades industriais via linhas específicas de financiamentos através do Banco Nacional de Desenvolvimento – BNDES.
Esse crescimento da demanda refletido pelo aumento do Consumo das Famílias pressiona a capacidade instalada de setores da economia estimulando o investimento produtivo, que necessitará de taxas de juros compatíveis com os retornos esperados e competitivos e possíveis ganhos em aplicações financeiras, ou seja, na atualidade um aumento da Taxa SELIC significa desestimular o crescimento da economia brasileira e a melhoria das condições de sobrevivência da sua população.
Este significativo crescimento do PIB brasileiro e, em especial, aquele vinculado ao Consumo das Famílias, em grande medida, se vincula ao desempenho do seu mercado de trabalho, que foi fortemente estimulado por políticas públicas adotadas pelo governo federal, a exemplo da ampliação e regulação do Programa Bolsa Família e da elevação do valor real do salário mínimo, resultado em aumento da massa salarial gerada no período. Também contribuíram neste sentido a maior disponibilidade de crédito às famílias e pelas menores taxas de juros praticados no mercado, boa parte disso através do chamado “crédito consignado”. Destaque-se que este crescimento do PIB e do consumo, ocorreu paralelamente a redução da Taxa SELIC passando de 13,75% em agosto de 2023 para 10,50% em setembro de 2024. Tal queda contribuiu consideravelmente para o maior dinamismo da economia brasileira, em que pese as inúmeras dificuldades ainda vivenciadas por expressiva parcela da sua população.
Apesar de todas estas otimistas perspectivas de crescimento e da realidade vivenciada pela economia brasileira, a última reunião do COPOM, sem nenhum argumento técnico consistente, por decisão unanime, aumentou novamente a Taxa SELIC para 10,75%. As inconsistentes justificativas deste aumento se assentam em vagos argumentos de resiliência na atividade, pressões no mercado de trabalho, hiato do produto positivo, elevação das projeções de inflação e expectativas desancoradas, que não justificam tecnicamente a decisão tomada, além de uma visão pessimista sobre o cenário internacional. Com esse aumento da Taxa SELIC, o Brasil passa a ter o segundo maior juro real do mundo, de 7,33% a.a., ficando atrás somente da Rússia, primeira colocada com 9,05%.
Uma redução da Taxa SELIC que poderia ter ocorrido nesta última reunião do COPOM, além de estimular sem riscos inflacionários um avanço na melhora do mercado de trabalho e do conjunto das atividades econômicas em seu conjunto, também resultaria em uma maior disponibilidade de recursos financeiros ao governo federal que poderiam ser utilizados em inúmeras políticas públicas de enfrentamento para melhora das condições de sobrevivência da população brasileira.
Os economistas financistas deveriam entender que, diante dos efeitos multiplicadores deste tipo de iniciativa que tem se mostrado consistente, todos os segmentos da socioeconomia brasileira se beneficiariam dela e não somente o sistema financeiro, ou seja, as políticas econômicas desenvolvimentistas e a redução da Taxa SELIC não “matariam somente a fome por lucro” do sistema financeiro, mas também poderiam “matar a fome por alimentos” e uma série de produtos de consumo de significativa parcela da população brasileira.
Grupo de Análise dos Impactos da Crise
Associação Brasileira de Economistas pela Democracia – ABED
Equipe Técnica: Ademir Figueiredo, Adhemar Mineiro (Coordenação), Antônio Rosevaldo Ferreira da Silva, Eron José Maranho, Jaderson Goulart Junior, José Moraes Neto e Juarez Varallo Pont.
Leia aqui as notas da Abed.

As eleições de 2026 e a pauta econômica de 2025
Clique aqui e confira mais detalhes sobre As eleições de 2026 e a pauta econômica de 2025
Saiba mais.webp?=2672102-2)
DIA INTERNACIONAL DA MULHER
Clique aqui e confira mais detalhes sobre DIA INTERNACIONAL DA MULHER
Saiba mais
NOTA DE REPÚDIO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ECONOMISTAS PELA DEMOCRACIA
Clique aqui e confira mais detalhes sobre NOTA DE REPÚDIO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ECONOMISTAS PELA DEMOCRACIA
Saiba mais
O Mercado de Trabalho Brasileiro em Alta: Causas, Consequências e Novos Desafios
Clique aqui e confira mais detalhes sobre O Mercado de Trabalho Brasileiro em Alta: Causas, Consequências e Novos Desafios
Saiba maisDeixe seu comentário!
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Envie seu comentário preenchendo os campos abaixo