As eleições de 2026 e a pauta econômica de 2025
10 de março de 2025
imagem: ABED
O grupo "Impactos da Crise" tradicionalmente elabora, ao final de cada ano, uma Nota Técnica (NT) com o objetivo de avaliar o desempenho da economia e dos indicadores sociais ao longo do período que se encerra, ao mesmo tempo em que delineia cenários prospectivos para o ano subsequente. O mesmo procedimento foi seguido ao final de 2024. Surge, então, a indagação: por que produzir uma nova Nota Técnica sobre a mesma temática? A resposta reside no fato de que a análise anterior não considerou um fator de significativa relevância para o presente exercício: o impacto das eleições de 2026, que, na prática, já começou a influenciar a agenda econômica em 2025.
Desde logo é preciso lembrar que no início de cada ano o mercado financeiro e seus arautos (oficiais ou não) produzem uma enxurrada de previsões, quase sempre pessimistas em relação ao crescimento do PIB, e alarmistas em relação à inflação. No entanto, à medida que os índices vão se tornando conhecidos, recorrentemente são feitos “ajustes” dessas previsões. Dito de outra forma, os fatos têm se encarregado de desmentir as narrativas iniciais, o que nos autoriza a pensar que as mesmas não são bem intencionadas ou, na melhor das hipóteses, partem de premissas equivocadas, o que é igualmente reprovável, partindo de “especialista” em país. A título de informação a matéria publicada pelo site Uol, revela que a margem de erro dessas previsões do mercado foi da ordem de 95% m nos anos de 2021, 2022, 2023 e 2024.
Em uma de suas últimas análises, o economista e jornalista Cesar Locatelli examinou 34 atas do Comitê de Política Monetária (Copom) produzidas entre 2018 e 2023, comparando os cenários que embasaram as decisões de política monetária com os desdobramentos reais. Segundo Locatelli, seu estudo trouxe "ao centro do palco a questão da técnica em contraposição à questão da política". Sua conclusão foi contundente: as previsões formuladas nos relatórios Focus e pelo Banco Central não possuem credibilidade, uma vez que suas projeções são sistematicamente divorciadas da realidade econômica.
No ano de 2025, recorrendo ao mesmo método, as previsões estimam que a inflação deve ultrapassar a barreira dos 5%, o que significaria um “estouro” da ordem de 0,50% acima do teto da meta de inflação, que é de 4,50%. Pelo lado do PIB, assim como em 2024, quando as estimativas mais “generosas” apontavam para um crescimento inferior a 1,0% - o crescimento do PIB será em torno de 3,5% -, em 2025, os “especialistas” afirmam que esse crescimento não se sustentará, pouco importando os indicadores que apontam em outra direção.
Além do costumeiro mau-humor do mercado em relação ao atual governo, é preciso levar em conta que apesar do calendário indicar que estamos no ano de 2025, é evidente que, como afirmado anteriormente, 2026 já começou. Porque em 2026 teremos eleições para presidente da República, para governadores de Estados e do Distrito Federal, renovação de 2/3 do Senado e eleição para deputados federais, e isso não é pouco. Diante desse cenário, é de se esperar que os arautos do mercado financeiro lancem previsões ainda mais pessimistas, e que outros atores envolvidos direta ou indiretamente na disputa política tentem dificultar a aprovação dos projetos propostos pelo governo. O jogo será pesado e já começou, senão vejamos:
O Programa Pé-de-Meia, que tem como objetivo combater a evasão escolar e promover a inclusão social por meio da educação e de incentivos financeiros vem sendo apontado pelo Ministro do TCU, Augusto Nardes, como irregular, por não estar contemplado dentro do orçamento, esquecendo-se que o programa é financiado por fundos já constituídos, especialmente na área da educação. A não correção da suposta irregularidade poderia, no limite, ser motivo de impeachment do presidente da República. Esse ministro é o mesmo que forneceu dados a Eduardo Cunha no processo de impeachment da ex-presidente Dilma. Em que pese o programa beneficiar quase 4 milhões de estudantes, a um custo anual de R$ 12,5 bilhões – este ano foram incluídos estudantes de licenciatura, visando a formação de professores para a redução do déficit no magistério –, ou talvez por essa mesma razão, ele vem sendo bombardeado por esse ministro do TCU e pela oposição. Contudo, os paladinos da moralidade mantêm-se calados quando a questão é o subsídio de 500 bilhões/ano para quem não mais precisa dele, mas que permanece sendo concedido por ter se convertido em “direito adquirido”. A solução apontada pelos opositores, dentre os quais se inclui o Ministro Nardes, é cortar gastos sociais para que o programa Pé de Meia caiba dentro do orçamento da União, afetando diretamente uma das principais bandeiras do atual governo, ou seja, mais uma mostra de que as eleições de 2026 irão pautar a agenda econômica e política em 2025. A título de informação, o citado ministro concedeu um prazo de 6 meses para o governo ajustar o Programa “Pé de Meia” ao orçamento da União, seja por remanejamento de verbas seja por cortes em áreas sociais, como já mencionado. Acrescentemos que já entramos no mês de março e a oposição no Congresso Nacional vem bloqueando a aprovação do Orçamento da União para este ano, obrigando ao governo a gastar mensalmente um doze avos do orçado no ano anterior, o dificulta a efetivação de programas do Executivo. O comportamento hostil a bancada oposicionista para com propostas do executivo, devem permanecer até o final de 2026.
Aqueles poucos, como nós, que afirmavam que a desvalorização do real frente ao dólar era devido mais a um ataque especulativo e menos por um problema estrutural da economia, foram taxados de governistas e irresponsáveis. A queda de 7,33% na cotação do dólar, ocorrida em janeiro de 2025, mostra que não estávamos equivocados, até porque nos primeiros 20 dias de fevereiro houve mais uma queda de 1,20%, fazendo com que a cotação do dólar recuasse de R$ 6,20 (em 31.12.2024) para R$ 5,70 (em 20.02.2025). No entanto, a mídia tradicional atribui essa queda apenas às declarações estapafúrdias do presidente norte-americano Donald Trump. Da parte do mercado financeiro e seus apaniguados revestidos de analistas econômicos não há nenhum reconhecimento do “equívoco” cometido, muito menos de que a problema não era estrutural e sim especulativo.
Até mesmo as reduções da taxa de desemprego para 6,2% (a menor da série histórica do IBGE), do nível de pobreza (mais de 30% desde 2023) e o modesto aumento do salário médio são motivos de contestação. Mas o vilão do momento é o crescimento expressivo da massa salarial. Esse “irresponsável “crescimento da renda da parcela menos favorecida da população tornou a economia mais aquecida, servindo de justificativa para o Banco Central aumentar a Taxa Selic. Mesmo após a substituição de Roberto Campos Neto na presidência do banco por Gabriel Galípolo – indicado pelo presidente Lula –, a Selic continua crescendo, sob o argumento de que é preciso frear o viés de alta da inflação. Desmentindo esse prognóstico e mostrando que a inflação não está fora de controle, o IPCA de janeiro de 0,16%, fez com que a taxa anualizada recuasse para 4,17%. Mesmo assim, as explicações da nova Diretoria do Banco Central para este e futuros aumentos na taxa Selic revela o quanto a autarquia está refém dos setores rentistas, pouco interessados na recuperação sustentável da economia, uma vez sua renda provém dos títulos da dívida pública. E quanto mais essa crescer, maior serão seus ganhos. São esses setores que, ao mesmo tempo em que se beneficiam da fragilidade financeira do governo, propagam aos quatro ventos a necessidade de austeridade fiscal, e defendem mais e mais cortes, particularmente os gastos sociais. É verdade, 2026 já começou.
Tanto isso é verdade que após serem desmentidos mais uma vez pelos fatos, o vilão do momento, e que irá puxar a inflação para cima, é o preço dos alimentos. Com efeito, há um aumento generalizado de preços de alimentos no mundo inteiro. Vejamos o caso do café. O café, uma das bebidas mais consumidas no mundo e um produto de grande importância para a economia brasileira, tem enfrentado sucessivos aumentos de preço nos últimos anos e, segundo análise recente publicada no UOL seu valor deve continuar subindo em 2025, impactando tanto os consumidores quanto a cadeia produtiva do setor. As razões para essa alta são multifatoriais, envolvendo questões climáticas, custos de produção e dinâmicas de mercado internacional.
Um dos principais fatores por trás do aumento dos preços é a instabilidade climática. O Brasil, maior produtor e exportador de café do mundo, tem enfrentado eventos extremos, como secas prolongadas e geadas, que prejudicam a produção agrícola. O segundo produtor mundial, o Vietnam, teve sua safra comprometida em 2024, da mesma forma que as geadas no sul de Minas Gerais, uma das principais regiões cafeeiras do país, causaram perdas significativas nas lavouras. Esses fenômenos reduzem a oferta do produto, pressionando os preços para cima. Com menor oferta no mercado e com uma alta demanda internacional do produto – países como os Estados Unidos e da União Europeia continuam a importar grandes volumes de café brasileiro, ao que se soma os expressivos volumes de importação do mercado chinês – com certeza não haverá estabilização de preços no horizonte próximo.
Voltando ao impacto político sobre a agenda econômica atual, em 2024 o café moído foi vendido nos supermercados com incremento de 75% em média. Em 2022 esse incremento foi da ordem de 121%, mas pouco ou nada se fala sobre isso. Por outro lado, a polarização política de um grupo muito organizado nas redes sociais, pressiona um governo acuado que parece não entender que o ato de questionar preços mais altos, é político, e quase nada adiantam explicações técnicas sobre a variação de preços do café ou qualquer outro produto. O jogo é pesado.
No momento em que o café tiver seu preço estabilizado, outros vilões irão surgir ou criados, mas a queda nos preços de vários produtos que compõem a cesta básica é solenemente ignorada. A saída é a retomada de estoques reguladores. Entretanto, comparando com o financiamento da safra 2024/2025, superior a 550 bilhões de reais, para a produção de alimentos majoritariamente destinados à exportação, certamente que a ínfima quantia de 500 milhões de reais destinados à formação de estoques reguladores não terá nenhum impacto no controle de preços. Se o jogo é pesado, é hora de estabelecer prioridades para a maioria da população.
Enquanto isso não ocorre, os arautos do caos, particularmente os que habitam o “universo paralelo” em que se situa a oposição de extrema-direita, não descansarão enquanto não conseguirem convencer a maioria da população que o importante é ficar alinhado com os Estados Unidos, e que bater continência para bandeira norte-americana é o exemplo maior de patriotismo. Da mesma forma, procuram incutir na população local que a gestão econômica praticada na Argentina, que colocou mais de 50% da sua população na linha da pobreza, é o modelo a ser seguido. E que sair dos BRICS, é a alternativa adequada, ainda que isso nos leve a um papel de subserviência em relação aos Estados Unidos.
Como afirmamos em outro ponto desta nota, o jogo já começou e será pesado. Cumpre às forças progressistas rebater com veemência esse projeto submisso, excludente e contrário aos interesses da nação brasileira, apresentando alternativas viáveis e alinhadas, não a países que nos consideram inferiores, mas àqueles que podem ser nossos parceiros na construção de condições melhores para a maioria da população.
Grupo de Análise dos Impactos da Crise
Associação Brasileira de Economistas pela Democracia – ABED
Equipe Técnica: Ademir Figueiredo, Adhemar Mineiro (Coordenação), Antônio Rosevaldo Ferreira da Silva, Eron José Maranho, Jaderson Goulart Junior, José Moraes Neto e Juarez Varallo Pont.
Leia aqui as notas da Abed.
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