Associação Brasileira de Economistas pela Democracia

Defesa da Democracia, da Soberania Nacional e do Desenvolvimento Inclusivo e Sustentável do Brasil

Associe-se

 

Soberania agrícola não é autossuficiência: o que o debate sobre fertilizantes deixa de fora

24 de junho de 2026

https://contextobrasil.com.br/wp-content/uploads/2026/06/img_site_fertilizantes_jaque-768x384.jpg

imagem: Contexto Brasil

texto:  Jaqueline Maria

   O Brasil costuma ser apresentado como uma potência agrícola. E os números justificam a reputação. O país está entre os maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo, lidera mercados estratégicos como soja, café, açúcar, carne bovina e carne de frango, e transformou o Cerrado em uma das mais produtivas fronteiras agrícolas do planeta.

   Por trás desse desempenho, porém, existe uma vulnerabilidade que raramente ocupa o centro do debate público. Para sustentar sua produtividade agrícola, o Brasil depende fortemente de fertilizantes importados. Cerca de 90% dos fertilizantes utilizados nas lavouras brasileiras vêm do exterior.

   A constatação costuma levar a uma pergunta aparentemente simples: se o Brasil é uma potência agrícola, por que não produz os próprios fertilizantes de que precisa?

   A resposta parece óbvia, mas está longe de ser simples. O problema não é apenas industrial, econômico ou tecnológico. Em grande medida, é geológico.

   Compreender essa realidade ajuda a qualificar um debate que frequentemente oscila entre soluções simplistas e diagnósticos incompletos. A soberania agrícola que o Brasil busca construir não será resultado de autossuficiência absoluta. Ela dependerá da capacidade de reduzir vulnerabilidades estratégicas por meio de uma combinação de produção nacional, inovação tecnológica, pesquisa científica e diversificação de fornecedores.

   A agricultura moderna depende fundamentalmente de três nutrientes: nitrogênio, fósforo e potássio — o conhecido NPK presente em praticamente todos os fertilizantes utilizados em larga escala. Cada um deles possui características próprias e enfrenta desafios distintos.

   O nitrogênio, por exemplo, existe em abundância na atmosfera. O problema é que as plantas não conseguem utilizá-lo diretamente. Para transformá-lo em fertilizante é necessário um processo industrial intensivo em energia, baseado principalmente no uso de gás natural. Embora o Brasil possua reservas de gás, a produção nacional ainda não é suficiente para sustentar uma indústria de fertilizantes nitrogenados capaz de atender toda a demanda agrícola do país em condições competitivas.

   O fósforo apresenta uma situação diferente. Trata-se de um recurso mineral finito, concentrado em poucos países. Nesse caso, o Brasil possui uma posição relativamente favorável, com reservas importantes localizadas principalmente em Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul. Ainda assim, a produção nacional atende apenas parte da demanda interna.

   Já o potássio representa o maior desafio. As maiores reservas mundiais estão concentradas em países como Canadá, Rússia e Bielorrússia. O Brasil importa mais de 95% do potássio que consome, e a geologia nacional oferece poucas alternativas capazes de alterar significativamente essa dependência no curto prazo.
 

 

   Foi justamente essa vulnerabilidade que se tornou mais visível nos últimos anos.

   Primeiro, durante a pandemia de Covid-19, quando interrupções logísticas e restrições comerciais afetaram cadeias globais de suprimento. Depois, com a guerra entre Rússia e Ucrânia, que produziu uma das maiores crises recentes no mercado internacional de fertilizantes.

   A Rússia e a Bielorrússia ocupam posições centrais no comércio global de potássio e fertilizantes nitrogenados. As sanções econômicas, as dificuldades logísticas e as incertezas geopolíticas provocaram uma disparada nos preços internacionais. Em poucos meses, produtores rurais brasileiros viram seus custos de produção aumentarem drasticamente.

   A crise serviu como um alerta. Assim como a pandemia revelou a importância da capacidade nacional de produzir vacinas e medicamentos, a turbulência no mercado de fertilizantes expôs a fragilidade de uma agricultura excessivamente dependente de insumos concentrados em poucos fornecedores internacionais.

   Mas reconhecer essa vulnerabilidade não significa concluir que a solução esteja apenas na mineração ou na construção de novas fábricas de fertilizantes.

É nesse ponto que os bioinsumos ganham relevância.

   Embora frequentemente apresentados como uma novidade, eles já fazem parte da agricultura brasileira há décadas. O exemplo mais conhecido está na produção de soja. A utilização de bactérias capazes de fixar biologicamente o nitrogênio atmosférico permite que grande parte da cultura seja produzida com uso mínimo de fertilizantes nitrogenados sintéticos.

   O que mudou nos últimos anos foi a ampliação das possibilidades tecnológicas. Hoje existem bioinsumos capazes de melhorar a absorção de nutrientes, aumentar a eficiência do uso do fósforo presente no solo, estimular o crescimento das plantas e reduzir a necessidade de determinados insumos químicos. O Brasil, impulsionado pela pesquisa da Embrapa e de universidades públicas, tornou-se uma das referências mundiais nesse campo.

   Em determinadas condições, o uso combinado de diferentes soluções biológicas permite reduzir significativamente a aplicação de fertilizantes sintéticos sem comprometer a produtividade. Em alguns casos, os ganhos vão além da redução de custos, contribuindo também para a melhoria da qualidade biológica dos solos.

   Mas há um risco crescente de tratar os bioinsumos como uma solução milagrosa. Os próprios pesquisadores da área alertam que a adoção dessas tecnologias exige conhecimento técnico, assistência especializada e adaptação dos sistemas produtivos. Diferentemente dos fertilizantes convencionais, muitos bioinsumos dependem de condições específicas de manejo para funcionar adequadamente.

   Temperatura, umidade, qualidade do solo, compatibilidade com defensivos agrícolas e momento correto de aplicação influenciam diretamente os resultados. O sucesso não depende apenas do produto, mas de todo o sistema de produção.

   Além disso, parte dos benefícios aparece apenas ao longo do tempo. A melhoria da saúde microbiológica do solo é um processo cumulativo que exige continuidade e planejamento. Em um setor frequentemente pressionado por resultados imediatos, essa característica pode dificultar a adoção em larga escala.

   Talvez a melhor forma de compreender esse processo seja olhar para uma experiência brasileira bem-sucedida: o etanol. Quando o Programa Nacional do Álcool foi criado, na década de 1970, o objetivo era reduzir a dependência do petróleo importado após os choques internacionais de preços. O etanol não se tornou competitivo da noite para o dia. Foram necessárias décadas de investimentos em pesquisa, infraestrutura, inovação tecnológica e políticas públicas consistentes. O resultado foi a construção de uma das cadeias de biocombustíveis mais eficientes do mundo.

   A trajetória dos bioinsumos guarda algumas semelhanças com essa experiência. Eles dificilmente substituirão os fertilizantes sintéticos em curto prazo. Tampouco eliminarão a necessidade de importações. O que podem fazer é reduzir gradualmente a exposição do país às oscilações do mercado internacional, aumentando a resiliência da produção agrícola diante de crises futuras.

   Essa discussão se torna ainda mais relevante quando se observa o avanço de novas fronteiras tecnológicas. Pesquisas em biologia sintética, engenharia genética e microbiologia agrícola buscam ampliar a capacidade de fixação biológica de nitrogênio para culturas como milho e trigo, hoje fortemente dependentes de fertilizantes industriais. Outros estudos procuram desenvolver variedades mais eficientes no uso de fósforo e tecnologias capazes de aumentar significativamente a produtividade dos sistemas agrícolas com menor consumo de insumos externos.

   Se parte dessas iniciativas alcançar escala comercial nas próximas décadas, o impacto sobre o mercado global de fertilizantes poderá ser tão transformador quanto foi a expansão dos biocombustíveis para o setor energético. Por isso, a discussão sobre soberania agrícola talvez precise começar por uma mudança de perspectiva.

   No caso brasileiro, isso passa por múltiplas frentes: ampliar a produção nacional onde ela é viável, diversificar fornecedores internacionais, fortalecer a pesquisa pública, investir em extensão rural, estimular a adoção de bioinsumos e preparar o país para as transformações que a biotecnologia poderá trazer nos próximos anos.

   A maior potência agrícola tropical do mundo continuará dependente de parte dos fertilizantes que utiliza. A questão central não é eliminar completamente essa dependência. É construir uma agricultura capaz de continuar produzindo mesmo quando o mundo se torna mais instável.

   E essa é uma tarefa que depende menos da geologia que o Brasil herdou e mais das escolhas que fará daqui para frente.

 

publicação original:

https://contextobrasil.com.br/soberania-agricola-nao-e-autossuficiencia-o-que-o-debate-sobre-fertilizantes-deixa-de-fora/

Este texto exprime a visão do(a) autor(a) e não representa a opinião da Abed

 

  Deixe seu comentário!

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Envie seu comentário preenchendo os campos abaixo

Nome
E-mail
Localização
Comentário