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O colapso silencioso da social-democracia europeia

15 de maio de 2026

imagem: ABED

texto: Maria Luiza Falcão 

 

A derrota trabalhista na Grã-Bretanha e a crise política do Ocidente

   As eleições locais e regionais realizadas em maio de 2026 no Reino Unido produziram um sinal político que ultrapassa largamente as fronteiras britânicas. O avanço expressivo da direita populista liderada por Nigel Farage e pelo Reform UK, combinado às perdas sofridas pelo governo trabalhista do primeiro ministro Keir Starmer poucos meses após sua chegada ao poder, recolocou no centro do debate uma questão que atravessa hoje grande parte da Europa: o desgaste progressivo da social-democracia tradicional diante de uma população marcada pela estagnação econômica, pelo aumento do custo de vida, pela insegurança social e pelas tensões em torno da imigração. Mais do que um episódio doméstico britânico, o resultado revela sintomas de uma crise mais ampla das estruturas políticas que sustentaram o Ocidente no pós-guerra — uma erosão que vem abrindo espaço para novas direitas nacionalistas, discursos anti-establishment e formas cada vez mais agressivas de polarização política.

   No País de Gales, o trabalhismo perdeu o controle político após quase três décadas de hegemonia. 

   Na Escócia, o trabalhismo voltou a perder espaço para o Partido Nacional Escocês, força política que defende maior autonomia escocesa e, historicamente, a independência em relação ao Reino Unido. Antigos redutos operários migraram para uma direita radical que cresce justamente entre setores socialmente mais inseguros. 

   O que emerge desse processo não é apenas um problema de liderança ou comunicação política. O que está em crise é algo muito maior: o esgotamento histórico da social-democracia europeia tal como ela foi reconstruída após os anos 1990.

   O que está em crise não é apenas um partido. É um modelo político inteiro.

   Durante décadas, a centro-esquerda europeia abandonou gradualmente sua identidade histórica ligada ao trabalho, à proteção social e à intervenção econômica do Estado para se adaptar à lógica da globalização financeira. A promessa parecia sedutora: crescimento econômico, integração internacional, estabilidade monetária e expansão dos mercados seriam suficientes para produzir prosperidade generalizada.
Não foram.

   A globalização ampliou lucros, fortaleceu o sistema financeiro e concentrou riqueza, mas destruiu parte importante da base industrial europeia, precarizou relações de trabalho e aprofundou desigualdades regionais.

   A social-democracia administrou esse processo em vez de enfrentá-lo.

   No caso britânico, isso se consolidou com o “New Labour” de Tony Blair. Blair venceu eleições e modernizou o discurso trabalhista, mas ao custo de aproximar o partido do consenso neoliberal dominante. A City of London — núcleo histórico original de Londres — tornou-se símbolo dessa transformação: a financeirização substituiu progressivamente a velha economia industrial que sustentava historicamente a identidade trabalhista.

   Enquanto Londres prosperava financeiramente, regiões inteiras do norte da Inglaterra mergulhavam em desindustrialização, desemprego estrutural e perda de perspectiva social.

   O Brexit foi a explosão política dessa fratura.

   Grande parte das elites europeias preferiu interpretar o Brexit apenas como irracionalidade nacionalista ou manipulação populista. Mas milhões de britânicos votaram também contra décadas de abandono econômico e contra uma globalização que lhes prometeu prosperidade e entregou insegurança.
A esquerda institucional não compreendeu isso a tempo.

   E esse fenômeno não se limita ao Reino Unido.

   Na França, o colapso histórico do Partido Socialista abriu espaço para a ascensão simultânea da direita radical e de forças antissistema. Na Alemanha, o desgaste do SPD ocorre em meio ao avanço da extrema direita da AfD justamente em antigas regiões industriais fragilizadas.

   Na Itália, a fragmentação da esquerda permitiu o crescimento contínuo da direita nacionalista. Até mesmo nos países nórdicos, tradicionalmente associados ao Estado de bem-estar social, partidos anti-imigração e forças conservadoras ganharam terreno.

   Existe um padrão comum.

   Quando a centro-esquerda passa a administrar austeridade, flexibilização trabalhista e contenção fiscal permanente, ela perde progressivamente a capacidade de representar os setores populares porque começa a ser percebida não mais como força de transformação social, mas como mera gestora dos limites impostos pelo mercado financeiro. O problema não está apenas nas políticas econômicas em si, mas no efeito político e simbólico que elas produzem. Trabalhadores, setores médios empobrecidos e regiões atingidas pela desindustrialização passam a sentir que os partidos historicamente ligados ao mundo do trabalho já não oferecem proteção concreta diante da insegurança econômica crescente.

   Durante décadas, a social-democracia europeia construiu sua legitimidade justamente sobre a expansão do emprego, da proteção social, dos serviços públicos e da redução das desigualdades. Quando esses mesmos partidos passaram a defender cortes fiscais, reformas trabalhistas flexibilizadoras e redução do papel econômico do Estado em nome da “responsabilidade dos mercados”, criou-se uma ruptura profunda entre sua identidade histórica e sua prática de governo.

   O eleitorado popular percebe isso de forma muito concreta. O fechamento de fábricas, a precarização dos contratos de trabalho, o aumento do custo de vida, a dificuldade de acesso à moradia e a deterioração de serviços públicos não aparecem para essas populações como abstrações macroeconômicas. São experiências cotidianas de perda de estabilidade e de horizonte social. Quando governos de centro-esquerda respondem a esse cenário dizendo que “não há alternativa”, acabam reforçando exatamente a percepção de impotência política que alimenta o desencanto democrático.

   É nesse vazio que cresce a extrema direita contemporânea.

   Não necessariamente porque ela apresente soluções econômicas reais, mas porque consegue ocupar o espaço simbólico da revolta social. Ao atacar elites políticas, burocracias internacionais, imigração ou instituições tradicionais, ela se apresenta como força de ruptura contra um sistema que muitos já consideram incapaz de protegê-los.

   A esquerda moderada, ao aceitar grande parte da arquitetura econômica neoliberal, perde justamente a capacidade de canalizar politicamente o descontentamento social.
O paradoxo é que parte significativa da população continua demandando proteção estatal, segurança econômica e estabilidade social — reivindicações historicamente associadas à própria social-democracia. Mas, quando esses partidos abandonam parcialmente esse papel, abre-se espaço para que forças nacionalistas e autoritárias tentem capturar esse sentimento de abandono.

   A crise da centro-esquerda europeia nasce exatamente dessa contradição: ela preservou o discurso progressista em temas importantes, mas muitas vezes deixou de oferecer respostas materiais suficientemente fortes para a insegurança econômica produzida pelo capitalismo financeirizado contemporâneo.

   A extrema direita compreendeu algo que parte da esquerda europeia se recusou a enxergar: insegurança econômica produz radicalização política. O eleitor que perde renda, estabilidade e perspectiva não reage apenas racionalmente; ele busca proteção, pertencimento e respostas rápidas.
Mesmo respostas falsas.

   A crise migratória ampliou ainda mais esse processo. Em várias sociedades europeias, o medo da perda de identidade nacional passou a ser instrumentalizado por forças nacionalistas que associam imigração, desemprego e deterioração social. E isso ocorre justamente num momento em que a economia europeia desacelera, a indústria perde competitividade e o custo de vida pressiona amplas parcelas da população.

   A guerra na Ucrânia agravou dramaticamente esse cenário.

   A ruptura energética com a Rússia elevou custos industriais, pressionou inflação e aprofundou a crise energética europeia. A Alemanha, motor econômico da União Europeia por décadas, enfrenta dificuldades industriais que poucos imaginariam há dez anos. Empresas reduziram produção, setores estratégicos perderam competitividade e parte da indústria europeia começou lentamente a deslocar investimentos para regiões com energia mais barata e custos menores.
Enquanto isso, o continente amplia gastos militares em ritmo acelerado.

   A Europa vive hoje uma contradição profunda: aumenta despesas com defesa enquanto enfrenta deterioração de serviços públicos, envelhecimento populacional, crise habitacional e perda de dinamismo econômico.

   Nesse ambiente, cresce a sensação de fadiga política.

   Muitos cidadãos já não acreditam que eleições alterem efetivamente sua condição material. Mudam governos, mas a estrutura econômica permanece praticamente intacta. A política passa então a ser percebida menos como instrumento de transformação e mais como gestão burocrática de limites impostos pelos mercados financeiros, pelas agências de classificação de risco e pelos constrangimentos fiscais.

   É exatamente nesse ponto que a democracia liberal começa a enfrentar sua crise mais séria.

   Não porque as eleições desaparecem.

   Mas porque elas passam a parecer insuficientes diante do tamanho da insegurança social produzida pelo próprio sistema econômico.

   A derrota trabalhista na Grã-Bretanha é, portanto, mais do que uma mudança eleitoral. Ela é um sintoma do desgaste de um modelo político incapaz de responder às transformações do capitalismo contemporâneo.

   E talvez o aspecto mais preocupante seja justamente este: a extrema direita cresce porque parte importante da população já não acredita que a esquerda moderada tenha disposição — ou poder — para enfrentar os interesses econômicos que produziram a crise atual.

   A Europa entra, assim, numa fase de instabilidade prolongada.

   Não se trata apenas de alternância de governos.

   Trata-se do enfraquecimento gradual das estruturas políticas que sustentaram o Ocidente no pós-guerra.

Este texto exprime a visão do(a) autor(a) e não representa a opinião da Abed

 

 

 

 

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