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Um diálogo entre civilizações, por enquanto | Carta semanal 17 (2026)

8 de maio de 2026

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imagem:  Abdel Hamid Baalbaki (Líbano), Guerra, 1977.

texto: Tricontinental

   Queridas amigas e amigos,

   Saudações do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

   Durante alguns dos piores dias da guerra ilegal dos EUA/Israel contra o Irã, conversei com amigos que estavam nas áreas civis bombardeadas. Alguns são acadêmicos, outros poetas e artistas, alguns trabalham no governo, outros em instituições de diferentes tipos. Todos eles, independentemente de suas opiniões sobre o governo, permaneceram firmes e desafiadores. Ninguém sentia que seu mundo estivesse sob ameaça. Mantiveram-se inabaláveis, sua coragem emanando de uma imensa crença na resiliência da civilização iraniana.

   O pensamento marxista e de libertação nacional tem uma história muito complexa com o conceito de “civilização”. O marxismo clássico o rejeitava, pois poderia apagar as divisões sociais sob um manto de homogeneidade cultural e, portanto, negar a necessidade da luta de classes. Mas, à medida que o marxismo se tornou uma estrutura crucial nas grandes lutas anticoloniais do período pós-Guerra Mundial Antifascista, a ideia de civilização retornou com um significado diferente. A civilização passou a ser entendida como um terreno valioso na luta cultural contra o imperialismo. Ela poderia se tornar um instrumento de continuidade nacional e legitimidade política, em vez de simplesmente uma máscara ideológica para a dominação de classe. Contudo, essa recuperação da civilização teve que ser realizada a partir da perspectiva de um projeto emancipatório disposto a romper com certas heranças reacionárias dentro da própria civilização.

   No caso da China, por exemplo, o marxismo chinês – melhor sintetizado por Mao Tsé-Tung – insistiu em romper com as piores heranças da China pré-revolucionária, como a hierarquia confucionista e o sexismo, ao mesmo tempo que adotou, por meio da luta de classes e da transformação ideológica, a própria ideia de “civilização chinesa” como um baluarte contra o imperialismo e para o desenvolvimento do patriotismo nacional.

 

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Imagem:  Kusbudiyanto (Indonésia), Mercado de pássaros, 2026.

   A Revolução Iraniana (1978-1979) foi liderada por uma gama de forças políticas, incluindo marxistas, muitos dos quais foram posteriormente perseguidos e mortos pela recém-criada República Islâmica. Apesar da subjugação, muitas ideias marxistas entraram no arcabouço ideológico da República Islâmica, seja por meio da obra de diversos pensadores com suas próprias histórias com o marxismo, como Ehsan Tabari (1917-1989), Jalal Al-e Ahmad (1923-1969), Ali Shariati (1933-1977), Bijan Jazani (1938-1975) ou Khosrow Golsorkhi (1944-1974). Gostaria de poder escrever mais sobre esses pensadores, mas isso exigiria um livro inteiro. O mais fascinante foi Golsorkhi, assassinado no auge de sua carreira. Ele disse a um juiz em seu julgamento:

Começo minhas palavras com um dito de Mowla [Imam] Hossein, um grande mártir dos povos do Oriente Médio. Eu, que sou marxista-leninista, busquei primeiramente a justiça social na escola do Islã e, a partir daí, cheguei ao socialismo. Não negociarei minha vida neste tribunal, nem mesmo minha expectativa de vida. Sou uma gota insignificante diante das lutas e privações dos povos combatentes do Irã… Sim, não negociarei minha vida, pois sou filho de um povo lutador e corajoso. Comecei minhas palavras com o Islã. O verdadeiro Islã no Irã sempre honrou seus compromissos com os movimentos de libertação do país. Seyyed Abdollah Behbahanis e Sheikh Mohammad Khiyabanis são verdadeiras personificações desses movimentos. E hoje também, o verdadeiro Islã honra seus compromissos com os movimentos de libertação nacional do Irã. Quando Marx afirma: “em uma sociedade de classes, a riqueza se acumula de um lado e a pobreza, a fome e a miséria do outro, enquanto aqueles que produzem riqueza são eles próprios privados dela”, e Mowla [Imam] Ali diz: “nenhum palácio é erguido sem que milhares sejam empobrecidos”, existe uma profunda semelhança. Assim, pode-se considerar Mowla [Imam] Ali como o primeiro socialista da história, assim como Salman Farsis e Abu Dharr Ghaffaris.

   Na época da revolução, a esquerda iraniana – dividida entre os guerrilheiros Fedayeen, o Partido Comunista Tudeh e os Mujahideen, revolucionários islâmicos – havia compreendido que não conseguiria derrubar o Xá sem o apoio das forças religiosas. Mas subestimaram o poder do clero sobre a sociedade iraniana, inclusive sobre a classe trabalhadora. Foi esse erro de cálculo que transformou a Revolução Iraniana na República Islâmica em menos de um ano. Contudo, em vez de formar uma teocracia comum, o Irã pós-revolucionário se baseou em uma herança civilizacional muito mais antiga, que remonta ao reinado de Ciro, o Grande (559–530 a.C.) e ao Império Aquemênida (c. 550–330 a.C.) – aproximadamente dois mil anos antes da chegada do xiismo como religião oficial do Irã durante o Império Safávida (1501–1736). É essa herança civilizacional ancestral que desempenha um papel fundamental na sociedade iraniana, permitindo-lhe absorver diferenças internas e invocar uma legitimidade histórica mais profunda em momentos de crise terrível, como base para a defesa da soberania. Em 1971, o Xá realizou um evento grandioso em Persépolis para celebrar 2.500 anos de civilização contínua desde Ciro, o Grande. Mais tarde, durante a guerra de agressão do Iraque contra o Irã, de 1980 a 1988, quando Saddam Hussein tentou apresentar o conflito como uma guerra de árabes contra persas, a República Islâmica rejeitou essa perspectiva e insistiu que se tratava, antes, de uma “defesa da pátria” (???? ?? ???, defa’ az vatan), baseando-se na ideia de uma terra inconquistada e não colonizada que deve ser defendida a todo custo pelo seu povo.

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imagem:  Ibrahim El-Salahi (Sudão), Visão da Tumba, 1965.

   Para quem não vem de sociedades colonizadas, é difícil compreender o poder de afirmações como “defesa da pátria” e da ideia de herança civilizacional. Os danos causados ??pelo colonialismo a tantas formações sociais são imensos. O colonialismo rouba riquezas e as reinveste em outros lugares para o desenvolvimento de outros povos; diminui as culturas dos povos colonizados e, muitas vezes, nega-lhes sua própria língua e seu próprio senso de missão histórica. É por isso que tantas pessoas no Sul Global se maravilham com o fato de o Irã ter conseguido resistir aos Estados Unidos e vencer o conflito atual em termos estratégicos.

   Para aqueles que compartilham essa história de aniquilação, testemunhar a dignidade demonstrada por sociedades como a China ou o Irã, em que há menos necessidade de construir orgulho cultural a partir de ilusões (através da criação de passados ??imaginados) ou da difamação dos outros (sejam minorias ou estrangeiros), é verdadeiramente inspirador. A ausência de destruição colonial total da cultura nesses lugares permite que sua própria história seja resgatada e reconstruída sem se deixar levar por falsas inversões do Ocidente (frequentemente uma mistura de rejeição e imitação). É esse tipo de confiança que encara o poder destrutivo dos Estados Unidos com dignidade e tem a coragem de responder com memes de Lego de Trump e seus comparsas, não como um deboche vazio, mas com genuíno desprezo.

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imagem:  Eng Hwee Chu (Malásia), Além da fronteira, 2014.

   Em dezembro de 1997, a Organização da Conferência Islâmica (OCI) divulgou a Declaração de Teerã, que apresentou a ideia de um “Diálogo de Civilizações”. Esta declaração foi uma resposta direta ao ensaio de Samuel Huntington, de 1993, e ao seu livro de 1996, O choque de civilizações e a reconfiguração da ordem mundial. Nesse ensaio inicial, publicado na revista Foreign Affairs, Huntington previu que “o conflito entre civilizações será a fase mais recente na evolução dos conflitos no mundo moderno”. Para o autor, a história havia evoluído do choque de ideologias (comunismo versus capitalismo) para o choque de civilizações (que ele definiu em termos religioso-culturais como “civilização ocidental, confucionista, japonesa, islâmica, hindu, eslava-ortodoxa, latino-americana e possivelmente africana”). Huntington alertou as novas linhas de fratura ao redor desses eixos. A OIC alertou que essa maneira de ver o mundo poderia gerar o próprio conflito que afirmava descrever, em vez de evitá-lo, e que seria melhor manter um diálogo entre as civilizações do que aguardar o conflito entre elas.

   A Declaração de Teerã encontrou eco nas Nações Unidas (ONU), mas não nos corredores das capitais ocidentais, em que a retórica da Guerra ao Terror – que antecedeu 2001 – escalou descontroladamente. O medo do Islã tornou-se rotineiro e foi rapidamente associado ao medo dos migrantes, um temor duplo que continua a paralisar a Europa e as Américas. Em 1998, a ONU proclamou 2001 o Ano do Diálogo entre Civilizações e, na 31ª Conferência Geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), realizada em Paris de 15 de outubro a 3 de novembro de 2001, elegeu o filósofo e diplomata iraniano Ahmad Jalali como seu presidente e convidou o presidente do Irã, Seyyed Mohammad Khatami, para discursar perante o órgão. A conferência ocorreu pouco mais de um mês após os ataques aos EUA em setembro e durante a invasão americana do Afeganistão como parte de sua Guerra Global contra o Terror. O discurso de Khatami continua impactante, pedindo ao mundo que não ceda a “falsas polarizações e divisões políticas”. O terrorismo “é o resultado da sinistra união entre a intolerância cega e a força bruta, com o objetivo de servir a uma ilusão que, apesar de toda a sua propaganda, nada mais é do que a projeção do conteúdo nocivo do inconsciente”.

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imagem:  Gerard Sekoto (África do Sul), Mãe e bebê, 1943–1945.

   Quando ocorre um ataque terrorista, a pior coisa a se fazer, disse Khatami, é responder com vingança. “A vingança é como água salgada que, embora pareça água, aumenta a sede em vez de saciá-la, mergulhando o mundo em surtos perpétuos de violência, ódio e vingança”. Em vez de vingança, insistiu Khatami, o diálogo “é a principal necessidade da comunidade internacional”.

   Um apelo ao diálogo é importante e necessário porque a alternativa nos conduz à aniquilação – tanto pelo sistema capitalista que aprofunda a desigualdade e impulsiona a destruição planetária, quanto pelo sistema imperialista que devora sociedades com guerras. Mas nem a civilização nem o diálogo, por si só, conduzirão a história à emancipação humana. Para isso, com o tempo, a luta de classes terá que se intensificar, as necessidades humanas terão que superar as desigualdades materiais e as relações de poder, e o sistema global terá que ser transformado para atender aos nossos destinos complexos, em vez de nos colocar uns contra os outros.

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imagem:  Jose´ Clemente Orozco (México), Katharsis, 1934–1935.

   Carlos Gutiérrez Cruz (1897–1930) desenvolveu sua sensibilidade poética em meio às correntes literárias do México pós-revolucionário, incluindo o grupo patriótico Contemporâneos, mas posteriormente rompeu com elas ao se radicalizar. Em 1923, publicou Cómo piensa la plebe, folleto de propaganda libertaria en haikais (Como pensa a plebe, panfleto de propaganda libertária em haicais), que transformou o haicai, forma poética associada no México a José Juan Tablada (1871–1945), em um veículo para a poesia comunista. Gutiérrez Cruz compreendia que não fazia sentido defender a nação se as massas trabalhadoras nada ganhassem com isso. Vale a pena repetir: uma civilização não pode ser defendida como uma abstração. Para ter algum significado, ela deve ser defendida como o registro vivo daqueles que fazem a história. Como ele mesmo afirmou em um de seus haicais:

Camponês, a terra dá cem por um
E você ganha um por cento.

   Cordialmente,

   Vijay

publicação original:

https://thetricontinental.org/pt-pt/newsletterissue/cartasemanal-ira-dialogo-civilizacoes/

Este texto exprime a visão do(a) autor(a) e não representa a opinião da Abed

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