Dois meses de governo Trump
2 de abril de 2025
imagem: Mihai Cauli
texto: Adhemar S. Mineiro
Parece que já se foram dois anos, mas até aqui temos apenas dois meses de governo Trump, iniciado em 20 de janeiro deste ano. Um tufão cansativo, com manchetes e evidência todos os dias na grande imprensa e nas redes sociais. Mais do que uma consequência do ativismo presidencial, uma estratégia. Um teste para os demais governos nacionais e para os tais “pesos e contrapesos” da institucionalidade política dos EUA. Mas há surpresa nisso?
Bem, a primeira referência deveria ser o governo anterior de Trump, já que não é seu primeiro governo, e o governo anterior nem faz tanto tempo assim (foi de 2017 a 2021). O ativismo nas redes e o lançamento de informações e mensagens espalhafatosas todos os dias, com relevância ou sem, mas capazes de ganhar evidência foi uma constante naquele período. O tufão cansativo já estava lá, e a tentativa de ruptura institucional também, como se viu no período de novembro de 2020 (quando perdeu a eleição) até janeiro de 2021, quando Joe Biden tomou posse, inclusive com a incitação a seus apoiadores para que invadissem o Capitólio, o congresso estadunidense, e impedissem a reunião que consagraria o novo presidente eleito, conduzida por seu (de Trump) próprio vice-presidente. Assim, na forma de ação, não deveria haver surpresa.
Nos conteúdos que vão sendo encaminhados, também não. Apesar das medidas radicalizadas e algumas aparentemente estapafúrdias, Trump não faz nada que não tenha sido anunciado desde julho do ano passado, na Plataforma do Partido Republicano aprovada para as eleições de 2024 (e que pode ser visto em Plataforma do Partido Republicano de 2024 | O Projeto da Presidência Americana). Se alguma surpresa pode haver aqui, é exatamente a inversa: um governo eleito que se guia pelo programa aprovado na maior instância partidária, a que também fez a escolha da candidatura. Deportações, paz imediata na Europa (leia-se, fim da guerra na Ucrânia) e demais membros da OTAN pagando os custos de sua defesa, guerra tarifária, defesa intransigente do dólar estadunidense como moeda de reserva internacional, incentivo aos combustíveis fósseis e desincentivo ao programa de carros elétricos, desregulamentação ampla, ataques ao sistema educacional existente nos EUA e sua transformação profunda, se possível com a extinção do Ministério da Educação, tudo estava lá.
Finalmente, o que não estava lá, foi anunciado entre a vitória (novembro de 2024) e a posse (20 de janeiro de 2025), como as possibilidades de retomada do Canal do Panamá, de incorporação da Groenlândia (território da Dinamarca, país membro da União Europeia e parceiro dos EUA na OTAN), e do Canadá como 51º estado dos EUA.
Assim, quase nada do discurso e das ações de Trump nos seus dois meses de mandato deveria surpreender.
Por trás de tudo isso, uma disputa vital com a China pela hegemonia no cenário econômico e geopolítico, e outra disputa de rumos no interior dos EUA, que se arrasta desde os anos 1990 do século passado, e vai empurrando os dois velhos partidos, o Republicano e o Democrata, que disputavam e caminhavam para o centro político, para posições cada vez mais antagônicas.
Trump agora vem não apenas com o velho nacionalismo econômico, buscando disputar e ganhar áreas antigas da indústria, sob a hegemonia histórica do Partido Democrata, mas que o discurso da guerra comercial e tarifária de Trump vem fazendo pender para o Partido Republicano, como o chamado “cinturão da ferrugem” (área industrial decadente), ou a consolidação nos estados de grande produção agrícola no Meio-Oeste. Vem com o empresariado das chamadas “big techs”, do Vale do Silício, como mostrado na sua posse, quando os grandes do setor estiveram presentes, aos quais oferece menos regulamentação, chances de negócios e participação no Estado. Vem ainda com um setor de Wall Street, do mundo financeiro, quer os tradicionais conservadores e financiadores de campanha, quer o mundo das fintechs, para os quais oferece desregulamentação e a continuidade da hegemonia do dólar estadunidense no mundo. E vem com o empresariado do petróleo e dos combustíveis fósseis.
Ou seja, além das paixões e pulsões da extrema direita, onde até juízes conservadores viram “esquerda” ao confrontarem suas medidas, na disputa no interior da sociedade dos EUA com a chamada “cultura woke” (garantia de direitos para setores específicos da sociedade), Trump se move também com o suporte de interesses econômicos bem concretos. Nisso, confronta o estabelecido setor público dos EUA (vale ver as referências a Washington DC, a capital do país e centro do poder e do Estado, com a burocracia civil e militar, na Plataforma acima referida) e um setor que, nos últimos oitenta anos, deteve extremo poder nas decisões nos EUA – o chamado “complexo industrial militar”. Esse último, confrontado, terá que se posicionar, mas é interessante ver as disputas entre Trump, sua assessoria mais direta, e a alta oficialidade das forças armadas.
Para o Brasil, até aqui, sobrou uma parte da guerra tarifária, atingindo o aço (em 2024, o Brasil foi o segundo maior fornecedor externo de aço aos EUA, superado apenas pelo Canadá) e alumínio, o que deverá atingir o comércio externo do país. E aí, a perda é dupla. Existe uma perda direta do mercado dos EUA, e da possibilidade de que os insumos que não vão para os EUA procurem novos mercados pelo mundo, e o Brasil pode ser disputado também (ou seja, deixamos de exportar e corremos o risco de importar). Mas existe também uma perda institucional, na medida em que as medidas de Trump vão desmontando a institucionalidade multilateral do comércio mundial, onde o Brasil sempre preferiu se mover.
Mas o mais relevante é que o Brasil é membro do BRICS, um grupo de países na política internacional que vem crescendo em número de membros e importância política, mas que os EUA veem como um instrumento geopolítico da China, e estão dispostos a confrontar. E o Brasil, esse ano, tem a presidência pró-tempore do BRICS, já que sedia em julho a reunião do grupo.
publicação original:
https://terapiapolitica.com.br/dois-meses-de-governo-trump/


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