BRICS e a Agenda Climática sob Trump 2.0, por Maria Luiza Falcão Silva
2 de abril de 2025
imagem: Divulgação Cop30
texto: Maria Luiza Falcão Silva
A COP30 ocorrerá em um contexto de rupturas geopolíticas, com os EUA ausentes ou disruptivos. Brasil encontra-se sob grande pressão .
O Brasil ocupa este ano a presidência do BRICS+, agrupamento formado por onze países: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, e pelos novos membros permanentes incorporados ao agrupamento a partir da XIV Cúpula do grupo em Johanesburgo, na África do Sul, em 2023: Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Irã. A Indonésia incorporou-se depois. O BRICS dobrou de tamanho, virou o BRICS+. O Uruguai e a Argélia estão em vias de adesão. Há ainda os países ditos parceiros: Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Tailândia, Uganda e Uzbequistão.
O BRICS, reunindo cerca de 49% da população global e 39% do PIB mundial, atua como fórum de articulação político-diplomática de países do Sul Global e de cooperação nas mais diversas áreas.
A XVI Cúpula do BRICS se realizará no Rio de Janeiro entre 6 e 7 de julho de 2025. O Brasil sediará, também, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas da UNFCCC, a COP30, que ocorrerá entre os dias 10 e 21 de novembro de 2025, na cidade de Belém, no Pará.
Será uma COP histórica uma vez que ocorre no ano em que se celebra os dez anos do histórico “Acordo de Paris” de 12 de dezembro de 2015, e pela simbologia de ser realizada na região da Floresta Amazônica. Mas, ao mesmo tempo, será uma COP permeada por conflitos e pelo estrago que o governo Trump tem feito com relação à agenda climática.
No passado, a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris durante o primeiro governo de Trump (2017-2021), teve implicações significativas para a geopolítica climática global e, indiretamente, para o grupo BRICS original (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Esses efeitos persistirão ao longo do segundo mandato de Trump (2025-2029) e se agravarão.
É possível identificar pelo menos três impactos decorrentes da saída de Trump do Acordo de Paris no progresso do bloco:
1. Oportunidade para Liderança Climática do BRICS
A retirada dos EUA do Acordo de Paris criou um “vácuo de liderança global” nas negociações climáticas. Isso permitiu que países do BRICS, especialmente China e Índia, assumissem um papel mais proeminente: A China reforçou seu compromisso com metas de neutralidade de carbono (como o anúncio de carbono neutro até 2060) e expandiu investimentos em energias renováveis.
A Índia lançou iniciativas como a “Aliança Solar Internacional” e aumentou sua capacidade de energia solar, posicionando-se como voz crítica de nações em desenvolvimento, nas negociações climáticas. O Brasil (antes de 2019) e a África do Sul tinham potencial para liderar agendas ambientais, embora enfrentassem contradições internas (ex.: desmatamento no Brasil e dependência de carvão na África do Sul).
A ausência dos EUA aumentou a pressão sobre o BRICS para compensar a falta de ambição climática global. De forma inédita, países emergentes, historicamente defensores do “Princípio das responsabilidades comuns, mas diferenciadas” (já que nações industrializadas, como os EUA, emitiram mais historicamente, acumulando um estoque de emissões muito maiores), foram cobrados a assumir compromissos mais ousados. A China, maior emissora atual de CO2, enfrentou demandas internas e externas para acelerar sua transição energética, mesmo mantendo dependência do carvão e te feito grandes progressos.
2. Cooperação Intra-BRICS em Energia e Tecnologia
A saída dos EUA incentivou projetos conjuntos no bloco:
– O Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) financiou projetos de energia renovável nos países membros, como parques solares na Índia e infraestrutura sustentável na África do Sul.
– Transferência de tecnologia: China e Índia colaboraram em pesquisa e desenvolvimento de energias limpas, enquanto o Brasil explorou biocombustíveis.
– A Rússia, menos ativa em renováveis, manteve foco em exportação de combustíveis fósseis, mas buscou parcerias com a China em gás natural (considerado “ponte” para a transição energética).
3. Impacto nas Negociações Globais
A postura dos EUA sob Trump enfraqueceu a coordenação multilateral, mas também abriu espaço para o BRICS influenciar agendas:
– Na COP26 (2021), China e Índia pressionaram para alterar o texto final sobre “eliminação gradual do carvão”, refletindo suas realidades energéticas.
– O BRICS passou a defender que países desenvolvidos financiem a transição energética de nações pobres, um tema central em conferências climáticas.
O afastamento dos EUA estimulou a China a lançar seu próprio mercado de carbono em 2021, enquanto o BRICS discutia mecanismos regionais de precificação de emissões. Restrições ocidentais a setores poluentes (ex.: carne brasileira ligada ao desmatamento) pressionaram o bloco a buscar mercados alternativos.
Apesar das oportunidades, o grupo enfrentou desafios internos: O Brasil sob Bolsonaro (2019-2022) apresentou retrocessos em políticas ambientais, aumento do desmatamento na Amazônia, e tensões diplomáticas com a Europa que abalaram a credibilidade do País em fóruns climáticos. A Rússia priorizou interesses econômicos em hidrocarbonetos, limitando seu engajamento em metas climáticas. E as relações da Índia com a China foram marcadas por disputas geopolíticas no Himalaia e competição por recursos energéticos, dificultando alinhamentos climáticos mais profundos.
Com os EUA fora do Acordo de Paris sob Trump 1.0, a influência relativa do BRICS na governança climática global aumentou, mas também foram expostas as limitações do grupo devido a divergências internas e contradições entre discurso e prática. Enquanto China e Índia aproveitaram para projetar liderança, outros membros, como Brasil (sob Bolsonaro) e Rússia, priorizaram agendas nacionais contrárias à sustentabilidade.
O retorno dos EUA ao Acordo sob Biden (2021) reequilibrou parcialmente o cenário, mas o legado do primeiro período de Trump alertou para o potencial dos BRICS de moldar a ordem climática global, desde que superem suas próprias contradições.
Trump 2.0, a partir de 20 de janeiro de 2025, acena para um retrocesso climático de dimensões catastróficas. Já inicia reforçando políticas semelhantes às de seu primeiro governo, com ênfase em:
1. Desmonte de políticas climáticas com a revogação de incentivos a energias renováveis, apoio a combustíveis fósseis (petróleo, gás e carvão) e saída renovada do Acordo de Paris.
2. Unilateralismo e tensões comerciais com imposição de tarifas contra a China e um número grande de países, afetando cadeias globais de energia limpa (ex.: painéis solares, baterias).
3. Boicote ao uso de carros elétricos produzidos pela China
4. Redução de financiamento climático por meio de cortes em contribuições a grupos de pesquisa e fundos internacionais, como o Green Climate Fund, crítico para países em desenvolvimento e da UNFCCC. O Governo dos Estados Unidos cancelou US$ 4 bilhões de repasses para o Fundo Verde para o Clima da ONU, recursos destinados a programas de energias renováveis e adaptação climática em países pobres. O compromisso anterior era de US$ 6 bilhões.
O BRICS como terceira força poderá pressionar por:
i) Metas adaptadas a realidades nacionais (ex.: tratamento diferenciado para economias emergentes);
ii) Mecanismos de financiamento inovadores, como impostos globais sobre combustíveis fósseis e criação de novos fundos para preservação de Florestas;
iii) uso de moedas locais em transações climáticas.
A COP30 ocorrerá em um contexto de rupturas geopolíticas, com os EUA ausentes ou disruptivos. A posição do Brasil, anfitrião da COP30, encontra-se sob grande pressão: precisará articular uma coalizão alternativa (talvez BRICS + União Europeia) para viabilizar avanços.
O governo Lula busca reposicionar o Brasil como líder ambiental, revertendo a imagem negativa do período Bolsonaro. Há pressões internas do lado do agronegócio e externas pela desconfiança dos europeus.
A COP30, na Amazônia, será um palco para:
– Demandar financiamento internacional para preservação da Floresta e bioeconomia. Há uma discussão bastante avançada proposta pelo Brasil de criação de um Fundo Global para proteção de Florestas da ordem US$ 125 bilhões;
– Chamar atenção para os povos originários que habitam a Floresta, que preservam a Floresta e dependem dela para sobrevivência;
– Mediar conflitos entre países desenvolvidos e em desenvolvimento sem a presença dos norte-americanos;
– Acelerar acordos bilaterais como, por exemplo, Brasil e África do Sul em energia renovável, mineração de críticos (lítio, níquel) e mercados de carbono;
O sucesso da COP30 dependerá não apenas da capacidade do Brasil de apresentar a Amazônia como “símbolo” – mas, para isso, urge frear o desmatamento. O resultado da Conferência da ONU no Brasil está condicionado à atuação de sua diplomacia de forma muito habilidosa para convencer os agentes econômicos das oportunidades que a agenda verde trará para todos em termos de benefícios econômicos e sociais – mais empregos, mais bem-estar; enfrentar desafios para a coesão do BRICS e para mediar os conflitos internos, no sentido de solidificar a liderança do bloco na ausência dos Estados Unidos e de uma Europa em situação de extrema fragilidade, de quase colapso, na geopolítica mundial.
As discórdias intra-BRICS são de várias ordens:
1. Conflitos bilaterais: Tensões sino-indianas (fronteira, rivalidade tecnológica) e divergências sobre a guerra na Ucrânia podem limitar ações conjuntas.
2. Competição por recursos: China e Índia disputarão acesso a minerais críticos na África e América Latina, essenciais para a transição energética.
3. Falta de engajamento no sentido do que se convencionou chamar de “ambição climática”: Rússia e África do Sul continuarão dependentes de combustíveis fósseis, dificultando um discurso unificado.
O Brasil, como anfitrião, terá o desafio de equilibrar sua “ambição ambiental” com a necessidade de manter relações pragmáticas tanto com os EUA (seu grande parceiro comercial) quanto com o BRICS.
O sucesso dependerá de entre outros de:
i) articulação diplomática ágil para evitar boicotes e atrair compromissos
financeiros.
ii) pressão interna por resultados concretos, como a busca por desmatamento zero e investimentos em energia solar e hidrogênio verde.
iii) cooperação técnica com China e Índia em ciência climática e infraestrutura resiliente.
O segundo governo Trump intensificou a polarização global, colocando o BRICS em uma encruzilhada. Em um cenário positivo, o agrupamento assumiria a liderança climática mundial, usando a COP30 para promover financiamento alternativo, tecnologias verdes e justiça ambiental, capitalizando a ausência dos EUA. Em um cenário negativo, divergências internas e dependência de combustíveis fósseis limitariam sua influência, enfraquecendo a COP30 e reforçando a narrativa de que “ninguém lidera” a agenda climática.
publicação original:
https://jornalggn.com.br/economia/brics-e-agenda-climatica-sob-trump-2-0-por-maria-luiza-falcao/


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